O
entrevistado desta edição é Ricardo
Saur, diretor de assuntos institucionais da CPM.
Saur fala sobre os problemas e perspectivas da produção
de TI e softwares no Brasil.
Como vê a competitividade brasileira no mercado
internacional de TI?
A competitividade é alcançada por vários
fatores, mas 3 sobressaem: preço, “know-how”
e prazos de entrega. Qualidade é importante para
certos mercados, como é o caso de TI. O Brasil possui
know-how tecnológico por ser um mercado acostumado
a muitas mudanças, principalmente no setor financeiro,no
qual a sofisticação é mundial e a qualidade
de TI, indiscutível. A inflação e as
constantes mudanças nos processos bancários
deixaram um legado para as empresas nacionais: uma grande
expertise nessas áreas de negócios, na qual
os serviços bancários sempre foram complexos,
necessitando de prazos rápidos de entrega. A reserva
de mercado também criou grande capacitação
em software básico, que contribuiu muito para a grande
capacitação técnica dos profissionais.
Apesar dos parcos resultados dos últimos dez anos,
o Brasil tem agora uma grande oportunidade de fazer parte
do cenário internacional de software na área
de “offshore”, pois seus custos (especialmente
no interior do país) são comparáveis
aos padrões mundiais, determinados especialmente
pelos indianos.
Como fazer para equilibrarmos nossa balança
comercial no setor de eletroeletrônicos?
Segundo a Abinee, esse ano as exportações
cresceram 7,7% em relação a 2002 e as importações
foram reduzidas em 9,5% no mesmo período. Nos primeiros
nove meses de 2003, o déficit da balança comercial
de produtos do setor eletroeletrônico (- US$ 3,6 bilhões)
apresentou retração de 21,6% em relação
ao do mesmo período do ano anterior (- US$ 4,5 bilhões).
Os Estados Unidos continuam sendo o principal destino das
exportações do setor (US$ 1,6 bilhão)
e o Sudeste da Ásia a principal origem das importações
(US$ 2,9 bilhões).
Para equilibrarmos nossa balança comercial no setor
é necessário chegar-se a um acordo interno
que defina uma política industrial coerente, associando
governo e iniciativa privada local e internacional, pois
nesse campo as forças de mercado não vão
estar do lado dos países em desenvolvimento sem uma
participação governamental. Neste momento
isto já está acontecendo. Com a junção
de esforços de quatro setores que não se entendiam
no governo anterior: Tecnologia, Comércio Exterior,
Planejamento e (“last, but not least”) Fazenda,
esperamos que isso venha mesmo a se tornar realidade.
Quais os principais empecilhos para a produção
de Tecnologia da Informação no Brasil?
A lista completa seria longa e tediosa, quase repetitiva.
Os verdadeiros empecilhos não são da área
de TI, mas da estrutura econômica nacional. Baixa
capacidade de poupança, décadas de irresponsabilidade
fiscal, juros altíssimos com preferência de
remunerar o capital e não a produção,
e vai por aí afora, são alguns dos fatores
que levaram a essa situação. Além disso,
o Brasil, com raríssimos períodos de exceção,
sempre foi carente em investimentos em pesquisa e desenvolvimento.
Esse cenário está mudando aos poucos, principalmente
em relação aos investimentos em governo eletrônico
e às iniciativas do setor privado. Está havendo
também uma conscientização de que a
tecnologia da informação é fundamental
para o progresso de toda a sociedade brasileira. Por isso,
são boas as perspectivas para a produção
brasileira de TI, especialmente em relação
à exportação de software e serviços.
Como o setor privado, unido por meio de entidades como
a Camara-e.net, pode atuar na reversão deste quadro?
Entidades como a Camara-e.net são fundamentais para
o debate e a “educação” da sociedade
brasileira. Por meio dessas associações, é
possível promover iniciativas com as embaixadas brasileiras
e posicionar a marca Brasil como sinônimo de tecnologia,
abrindo portas em grandes corporações lá
fora e aumentando nossa presença no exterior.
O que a CPM está fazendo nessa direção?
Para incentivar o desenvolvimento de TI no Brasil, estamos
investindo na formação dos profissionais da
companhia, envolvendo-os em processos como a certificação
CMM, e valorizando a criação de novos processos
e metodologias como fator importante nesse processo. Além
disso, também são feitos investimentos em
prospecção e desenvolvimento de novos negócios,
paralelamente à atualização tecnológica
da companhia, fundamental para que a CPM possa agregar valor
às soluções levadas aos seus clientes,
crescendo e gerando resultados.
E no sentido de aumentar as exportações,
quais as principais iniciativas da CPM?
Na área de exportação de software
e serviços correlatos, estamos abrindo um escritório
comercial em Nova York para ampliar nossa atuação
no exterior, focada em outsourcing no segmento financeiro,
setor no qual o Brasil é reconhecido internacionalmente
e tem vantagens de conhecimento e know-how do negócio.
O mercado americano movimenta cerca de US$ 10 bilhões
ao ano em terceirização de desenvolvimento
de software e cerca de 90% dos contratos vão para
empresas indianas. O setor financeiro responde por US$ 7
bilhões do total. Nosso objetivo é conquistar
entre 1% e 2% do outsourcing do setor financeiro, cerca
de US$ 100 milhões.