Entrevistamos
Gastão Mattos, Presidente da Camara-e.net,
um dos representantes brasileiros na NRF 2004.
>Qual a importância da NRF (National Retail
Federation) e desde quando a instituição existe?
A NRF existe há mais de 90 anos, sendo a instituição
de maior representatividade para os varejistas norte-americanos.
O Congresso da NRF, sempre realizado em janeiro na cidade
de Nova Iorque, reúne a nata do pensamento varejista
mundial e conta com a participação assegurada
dos maiores lojistas dos Estados Unidos e do mundo. Nesta
última edição mais de 100 brasileiros
estiveram presentes no evento, que além do Congresso
com uma densa agenda (por vezes mais de 6 apresentações
simultâneas) conta também com uma Exposição,
reunindo fornecedores de tecnologia e serviços para
a área de varejo, demonstrando o estado da arte na
operação de venda.
>Como a NRF trata do universo digital?
Nos últimos 5 anos, com o aumento de importância
do comercio eletrônico nas operações
de varejo, o conteúdo da NRF vem também transferindo
um peso maior ao varejo on-line. No ano passado, somente
no mercado americano, o faturamento do varejo on-line foi,
segundo a Forrester, equivalente a US$ 100 bilhões
(inclui leilões e turismo), o que significa 4,5%
do varejo total americano. No conteúdo da NRF, o
tema é tratado não mais como uma promessa
estratégica, mas sim como um canal efetivo de vendas
e de grande resultado na operação do varejo.
>Quais foram os destaques no varejo on-line
norte-americano em 2003?
Do ponto de vista de performance de vendas, certamente
a Amazon e o e-Bay, com grande expressão de faturamento.
Destaca-se a alta representatividade do negocio leilão
nos EUA. Estima-se que este segmento movimentou US$ 20 bilhões
no ano passado, apresentando um índice de crescimento
maior que os demais setores da economia on-line. Do ponto
de vista de estratégia, destaca-se a importante presença
de varejistas tradicionais do mundo físico investindo
de forma significativa no canal web para vendas. Ainda segundo
a Forrester, a margem média das operações
on-line nos EUA no ano passado foi positiva e de 22%. Mais
de 70% das lojas da internet americana reportaram lucro
no ano passado. Creio que os números demonstram claramente
a força do comércio eletrônico, sua
importância e merecido destaque.
>O que esperar para 2004?
A estimativa, ainda preliminar, é de que o faturamento
on-line nos EUA cresça 24% em relação
a 2003, chegando a movimentar US$ 125 bilhões. Contudo,
creio que o mais impactante é a crescente participação
do varejo on-line em relação ao todo, chegando,
já em 2004, a 5,6% do total. Até o final do
ano 2006, esta participação chegará
a 7,5%, o que significa que podemos esperar um horizonte
de crescimento exponencial para este negócio no futuro.
>Com um retrato tão positivo, a impressão
é de que não existem adversidades no comércio
eletrônico norte-americano. Esta impressão
se confirma?
Pelo contrário. Existem enormes barreiras a serem
superadas, sobretudo quanto à garantia de privacidade
nas transações on-line, requisito de destaque
na avaliação dos consumidores americanos.
Além disso, o varejo on-line por lá sofre
grande impacto das novas leis estaduais e projetos de leis
federais contra o SPAM, que além de lutar contra
esta prática nociva, tem implicações
sérias de restrição para as ações
crescentes de e-mail marketing responsável. A importância
desta ferramenta no negócio americano é elevada.
O índice médio de sucesso das ações
de e-mail marketing no ano passado, para as 100 maiores
empresas americanas, foi de 5%, uma média alta e
significativa. As leis precisam ser revistas, elaboradas
por experts no assunto, para que cumpram sua função
regulatória no combate a práticas nocivas
sem, no entanto, prejudicar o bom andamento da economia.
>Quais as implicações para o Brasil
daquilo que é observado no mercado on-line norte-americano?
São várias. O mercado americano é
o maior do mundo, e além disso apresenta o maior
avanço na difusão do varejo on-line. Acredito
que temos muito a aprender observando o que se passa por
lá. Claro que nosso mercado é distinto e apresenta
características próprias, nem sempre similares
aos EUA. Contudo, tecnologias e técnicas de desenvolvimento
podem ser adaptadas ao nosso mercado com ganhos na velocidade
de penetração do varejo on-line. Não
é à toa, por exemplo, que as empresas de cartões
de crédito estão trazendo para o Brasil as
mesmas plataformas de segurança operantes nos EUA.
Neste sentido acredito ser estratégico acompanhar
o que se passa em mercados chaves como o norte-americano.
>Por fim, quais as novidades do negócio
on-line nos EUA?
A grande novidade é a venda de músicas pela
Web. O segmento parece ter superado o início equivocado
e informal pilotado no passado pelo Napster. Hoje, esta
mesma empresa, ressurgiu em novo modelo vendendo seu acervo
de mais de 300 mil musicas ao preço unitário
de US$ 0,99. A venda de hardwares de armazenagem e reprodução
de musicas digitais, como o iPod, da Apple, é o hit
do momento nos EUA, segundo o presidente da cadeia Wall
Mart, Lee Sott, em seu speach de abertura na NRF 2004. De
acordo com Scott, o consumidor americano sabe como "arrranjar"
dinheiro para novas compras quando o varejo lhe oferece
algo inovador, que atenda uma necessidade não percebida
anteriormente. Este é um segmento promissor. Um de
seus players, o iTunes, da Apple, espera vender mais de
40 milhões de musicas no varejo americano em 2004.