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UNCTAD XI
Em duas semanas a cidade de São Paulo sediará
o importante congresso UNCTAD
XI, reunindo cerca de 5 mil delegados, Chefes
de Estado e de Governo de todo o mundo.
A Câmara Brasileira de Comércio Eletrônico
vem colaborando com a organização do evento,
em interlocução permanente com os responsáveis
na sede da UNCTAD, em Genebra, bem como com a coordenação
geral aqui no Brasil, sob a responsabilidade da Ministra Leonilda
Alves Corrêa, Coordenadora-Geral do Gupo de
Trabalho de Preparação da UNCTAD XI, do Ministério
das Relações Exteriores.
Nossa colaboração tem se dado em várias
frentes, tendo em vista a relevância do Congresso.
Estamos buscando oportunidades de palestras e apresentações
para nossos sócios nos eventos oficiais e nas dezenas
de eventos paralelos, no Rio e em São Paulo.
Por outro lado, antes e durante o evento, membros da equipe
executiva da Camara-e.net estão participando
diretamente do processo preparatório. Marcela
Porto, assessora internacional da Camara-e.net,
está atuando como auxiliar direta da Ministra Leonilda,
alocada no escritório central do evento no Anhembi.
Antonio Bittencourt, nosso webmaster, está
trabalhando em conjunto com a equipe do MRE na construção
e manutenção do site. Claudia Storch,
de nosso escritório, está dando suporte às
ações de nossa equipe, e Cid Torquato,
diretor executivo, além de convidado para diversos
eventos, participará como imprensa, registrando os
principais acontecimentos e repercussões da Conferência.
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Entrevistamos
José Renato Nalini, presidente do
Tribunal de Alçada Criminal de São Paulo (Tacrim),
responsável pelo lançamento, no final de março,
de um projeto-piloto de informatização de
processos judiciais.
Como as Tecnologias da Informação podem ajudar
na modernização do Judiciário?
As possibilidades são inúmeras. O Judiciário
foi a função estatal que mais preservou o
ritualismo e as tradições imutáveis.
Há um enorme déficit de eficiência,
que pode ser resgatado mediante a implementação
de tecnologias já comprovadas em outros setores.
O meio da Justiça engloba tudo aquilo necessário
para seu funcionamento: setores como RH, contabilidade,
compras e transportes, e poderia receber imediata otimização
para desempenhar suas atribuições com mais
eficácia. Porém, o universo inexplorado da
atividade-fim - a realização da Justiça
- oferece insondáveis possibilidades. Não
é proibido sonhar com um processo virtual, com a
extinção ou sensível redução
do suporte papel, ágil, célere, eficiente.
Isto sem prejuízo da segurança, que é
um fator tão considerado pelo Judiciário e
que tem servido para frear a possível aceleração
de seus serviços.
Se o mundo virtual veio para ficar, a Justiça não
pode ignorar qualquer experiência que esteja a se
desenvolver, e deve participar do debate - intenso e fecundo
- dessa nova realidade. Se ela não proceder a esse
"aggiornamento", corre o risco de ampliar a faixa
do descarte, ou seja, mais e mais segmentos fugirão
das soluções convencionais do Judiciário
para procurar soluções mais compatíveis
com o ritmo desta era hiper-moderna.
Há exemplos de uso das TICs no Poder Judiciário?
O TACRIM de São Paulo, desde 2000, admite a impetração
de "habeas corpus" por e-mail. Isso poderia convertê-lo
no Tribunal mais rápido do mundo, em tema de tutela
da liberdade, pois o HC serve para preservar o status natural
da criatura humana, que é a liberdade. Uma hora de
prisão para um inocente constitui mácula indelével.
Há pressa na recomposição do atributo
indissociável da dignidade da pessoa humana, mas
também há o projeto do processo virtual, que
se inicia com postulação encaminhada por correio
eletrônico, instruída de documentação
escaneada, que merece distribuição também
virtual, réplica pela mesma via, e decisão,
também dispensado o compromisso presencial ou a locomoção
física dos envolvidos.
A videoconferência é outra possibilidade que
deve ser utilizada com maior intensidade para obviar os
traslados de infratores perigosos, bem como para poupar
tempo às partes e propiciar aos interessados a participação
efetiva na administração da Justiça.
Um advogado em local distante, por exemplo, poderá
fazer sustentação oral e interagir com a turma
julgadora de seu recurso.
A certificação digital poupa às pessoas,
a necessidade de se locomover até o Fórum
ou Tribunal, para obter cópia autenticada de peças
essenciais à produção de prova ou ao
esclarecimento de situações. O cabeamento
lógico ou a fibra ótica e a tecnologia "wireless",
abrem outras possibilidades que já têm sido
utilizadas no empenho pessoal de alguns juízes mais
aficcionados à contemporaneidade. O acompanhamento
de andamento dos processos pela Internet já é
usual.
Isso não significa somente o ganho de tempo e economia
de investimento, mas tem uma vertente democrática
importantíssima. O cidadão será o verdadeiro
Corregedor da Justiça. Saberá quais os "gargalos”
em que seu processo está paralisado e a responsabilidade
emergirá naturalmente, com ganhos para o planejamento,
racionalização e aperfeiçoamento dos
fluxos. São inúmeras as opções
abertas, mas há um campo em que se deveria insistir
de imediato: o das comunicações no processo.
Com o elenco de vias abertas pelas TICs, não faz
sentido monopolizar a comunicação processual
mediante utilização de pessoas físicas,
como na Idade Média. A adequada utilização
dessas tecnologias abreviaria sensivelmente a duração
das demandas e tornaria a Justiça um serviço
público eficiente e mais legitimado perante a comunidade
de seus usuários, produzindo inegáveis ganhos
em densidade democrática e em reforço da cidadania.
O que está barrando uma maior aplicação
das TICs no Judiciário? O que fazer para mudar este
estado de coisas?
Vontade é o que mais falta. O Judiciário,
por trabalhar com uma só dimensão de tempo
- o passado - (tanto que o processo é uma ciência
reconstrutiva) - perdeu a capacidade de encarar o futuro.
Ao menos, de encarar com ousadia e vontade de mudar. Na
classificação das categorias de usuários,
eu correria o risco de afirmar que há alguns jovens
juízes inovadores, poucos que adotam a nova tecnologia
mais cedo, mas muitos retardatários ou mesmo resistentes.
Há quem se utilize do PC como máquina de escrever
sofisticada sem querer extrair mais alguma coisa dele.
Para vencer a resistência, acredito na educação
permanente, na exigência de noções de
informática aplicada como disciplina passível
de ser exigida nos concursos de seleção, no
investimento em educação virtual a todos os
protagonistas do drama judiciário: funcionários,
juízes, promotores e advogados. A mudança
mais urgente é a de mentalidade. Um Poder que ainda
tem denominações como "oficial maior",
"meirinho", "escrivão" e “escrevente"
precisa de um choque de gestão imediato.
Em que direção deveria evoluir a Justiça
brasileira?
Assim como o Estado foi repensado e teve suas funções
reduzidas, com a devolução da iniciativa à
chamada "sociedade civil", o Judiciário
– integrante do Estado - precisa caminhar na mesma
direção. É uma falácia afirmar-se
constantemente que faltam juízes, faltam tribunais,
falta material, falta dinheiro. O mundo não pode
ser convertido em um grande Tribunal, com um juiz em cada
esquina para resolver todos os desentendimentos. A Justiça
deve ser reservada às grandes questões, nas
quais oferecerá um parâmetro a ser seguido
na solução espontânea das controvérsias.
A prestação jurisdicional é sempre
uma intervenção do Estado na vida das pessoas,
que precisa ser reduzida ao mínimo, quando se tratam
de bens disponíveis. Como solução heterônoma,
vinda de um agente externo, é caracterizada por um
déficit ético, ou seja, a solução
negociada, conciliada, discutida entre as próprias
partes, é uma resposta eticamente superior ao conflito.
Quando as pessoas discutem, argumentam, tentam persuadir
e são persuadidas pelos contra-argumentos, sentem-se
partícipes da solução. Transigem e
sabem que chegaram ao acordo possível, sentindo-se
maduros, adultos e capazes.
A resposta oferecida pela Justiça, muitas vezes,
desagrada a todos os partícipes do conflito e, mais
do que isso, faz com que se sintam excluídos do debate,
afinal submeteram uma questão pessoal ao Estado,
que a resolveu com base em um cipoal normativo de difícil
entendimento, de interpretação distanciada
do senso comum e cuja resposta é muitas vezes ininteligível
aos próprios interessados.
Esta é a minha visão - utópica, bem
sei - da Justiça. Esta não pode crescer quantitativamente
ao infinito, assim como a questão penal não
pode se resumir à construção de inúmeras
outras prisões, de maneira a se contar com metade
do mundo encarcerado e a outra metade trabalhando em administração
de presídio.
A inclusão digital é um instrumento
eficaz na distribuição de Justiça?
Certamente, pois o acesso à informática
amplia a potencialidade de cidadania de qualquer pessoa,
incluindo o acesso à informação e aos
meandros da administração pública,
permitindo a fiscalização do funcionamento
da máquina. Também abre possibilidade para
reclamações – o cidadão passa
a ter provas disso na Ouvidoria do TACRIM, a primeira Ouvidoria
em termos de Judiciário em S.Paulo.
Com o tempo, poderíamos pensar numa espécie
de "Pronto-Socorro Virtual" para que questões
de justiça viessem a ser discutidas e resolvidas
virtualmente, sempre de maneira a multiplicar a capacidade
das pessoas resolverem seus próprios problemas. É
preciso fazer ressurgir o princípio da subsidiariedade
e cortar o vínculo de dependência das pessoas
com o Estado, que já foi todo-poderoso, mas que hoje
não consegue satisfazer todas as suas promessas.
Por outro lado, a Inclusão Digital permitirá
a mais aproximada concepção de retorno ao
ideal da Democracia Direta. Se as pesquisas feitas pela
Internet são instantâneas e servem a tantos
objetivos do mercado, por que não nos servirmos dela
para aferir a opinião da população
internauta sobre temas relevantes da condução
dos interesses públicos? As dificuldades da concentração
física de multidões na ágora (com o
transitório desgaste da expressão grega designativa
de praça pública) não existem na imensa
"ágora virtual" que é o grande "Maracanã"
das discussões passíveis de serem travadas
na Internet. Sempre será um termômetro válido
do pensamento da faixa da população mais atenta,
mais antenada e, presumivelmente, mais lúcida, por
ser a maior partícipe nos debates nacionais.
Como intensificar esse debate?
O aprendizado, que também é um projeto
de vida, precisa ser holístico. É cada vez
mais necessário que profissionais das diversas áreas
dialoguem, tentem se inteirar dos problemas enfrentados
pelos cultores de esquemas mentais muito diversificados.
É preciso romper a blindagem que nos separa - e falo
particularmente no profissional do Direito, o fruto da mais
arcaica dentre as concepções de ensino universitário
- e aprender a compreensão.
A Justiça pode ser uma alavanca eficiente na transformação
da sociedade, imersa em problemas insolúveis - egoísmo,
violência, indiferença, maltrato da natureza
- desde que aceite também se transformar para assimilar
experiências exitosas em outros setores. Para quem
assimilou o princípio do contraditório, não
é difícil colocar-se no lugar do outro. E,
no caso, situar-se também na posição
do consumidor da justiça, que sonha com um serviço
público célere, eficiente, pouco dispendioso
e descomplicado. As novas tecnologias poderão fazer
milagre na Justiça brasileira, mas o milagre só
acontece para quem acredita nele.
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