Entrevistamos
Roberto Rooney Zabeo, Presidente da Interchange.
O que muda na relação entre empresas
e fornecedores no pós-revolução das
Tecnologias da Informação e Comunicações?
Acredito que os anos que marcaram o final do século
passado e o início deste não podem ser chamados
de revolucionários para o uso das Tecnologias da
Informação e Comunicações nos
negócios; não podem porque não o foram.
O que aconteceu é que a mídia em geral, e
a especializada em particular, exponenciaram a propagação
do conhecimento de que existiam tecnologias que, dadas certas
condições, poderiam modificar substancialmente
– para melhor - a forma como as empresas fariam negócios,
o que acorreu minimamente, de forma pontual, excepcional
e raramente replicável. As promessas da nova Corrida
do Ouro enriqueceram alguns poucos e provocaram uma enorme
frustração naqueles que apostaram na imediata
implantação da Nova Economia, como foi chamada.
Isso provocou uma reação exageradamente negativa
sobre o que, na realidade, pode-se esperar dessas tecnologias.
Obviamente, qualquer tecnologia para ser considerada revolucionária
deve possuir as condições necessárias
e suficientes para transformar o objeto na qual é
aplicada de forma radical, e quase substitutiva do estado
anterior. Não foi o que se viu no período
a que nos referimos, porque as Tecnologias da Informação
e Comunicações nos negócios são
meios de criação de valor – quando esse
valor é claramente identificado e distribuído
- para as empresas e não um fim em sí próprias.
A criação de modelos de negócios eletrônicos
implica na disponibilidade de máquinas, programas,
pessoas e processos, com propósitos e usos compatíveis.
As ferramentas existentes há mais de uma década,
especialmente as relativas às máquinas e programas,
podem ser considerados suficientemente capazes de criar
maior valor e relações entre empresas; no
entanto a dificuldade de alterar a forma habitual de fazer
negócios, ou seja a dificuldade de mudança
nos modelos tradicionais, tem retardado o uso mais eficaz
das Tecnologias da Informação e Comunicações.
Esse enorme preâmbulo à resposta dessa pergunta,
tem o propósito de sublinhar que o que mudou nas
relações entre empresas e fornecedores foi
muito pouco à luz do potencial de ganho que se poderia
auferir se as das Tecnologias da Informação
e Comunicações fossem colocadas na agenda
estratégica para alavancar processos inovadores de
compra e de venda, estocagem e distribuição.
Da mesma forma que essas tecnologias sustentam e suportam
a evolução dos negócios bancários
– ou das transações financeiras -, poderiam
produzir efeitos extraordinários nas cadeias produtivas
de muitas indústrias tradicionais, sem serem consideradas
e nem serem necessariamente revolucionárias.
Fale com mais detalhes como funciona, hoje, o processo
de troca de informações entre duas empresas
modernas.
Os custos e disponibilidade de máquinas e softwares
têm-se reduzido notavelmente, o uso da Internet permite
que grandes empresas consigam “falar” com parceiros
de pequeno porte, as tecnologias tradicionais de comunicação
e transferência de dados entre empresas, tal como
o EDI, estão maduras o suficiente para serem absorvidas
pelas empresas de forma pouco complexa. Empresas modernas
usam dessas possibilidades, de forma intensiva para ampliar
e “suavizar” suas relações com
clientes e fornecedores.
Os meios estão dados, cabe-nos questionar se as
empresas estão preparadas e conscientes da necessidade
de mudar processos (e comportamentos) para se beneficiarem
dessas oportunidades. A redução dos custos
por transação é o primeiro objetivo
a ser alcançado, – compartilhamento dos esforços
para diminuição dos erros, melhoria do faturamento
e da liquidação financeira podem ser facilmente
medidos e alcançáveis. Segue-se então
a busca por eficácia de compra e venda, garantidas
por relações estáveis com clientes
e fornecedores nas quais as condições de preço,
qualidade e entrega são garantidas e controladas
por meios eletrônicos compartilhados e confiáveis.
Isso e apenas isso, sem avançar em soluções
existentes mas de aplicação mais complexa,
garante avanços grandes na capacidade de algumas
cadeias produtivas criarem valor, e o compartilharem.
Como ficam os pequenos neste processo?
Esse passos iniciais são disponíveis para
empresas de qualquer porte, mas especialmente abre grandes
perspectivas para que pequenas e médias empresas
participem dessas iniciativas.
O passo seguinte, mas ainda distante da enorme maioria
das empresas, é o de usar as Tecnologias da Informação
e Comunicações como fator de inovação
para a melhoria de competitividade de todo um grupo de parceiros
conectados; isso é possível a partir do compartilhamento
de informações destinadas ao desenvolvimento
e melhoria do desenho de produtos e no desenvolvimento de
processos comuns, demandando grande interação
e coordenação de toda uma cadeia produtiva
só possível através de meios eletrônicos,
processos e pessoas perfeitamente conectados e alinhados.
O que é preciso para que essas facilidades
sejam aplicadas a governos e empresas governamentais, na
desburocratização da máquina estatal?
O governo, com todas as suas ramificações,
é um enorme potencial usuário e beneficiário
das possibilidades de ganhos de eficiência e eficácia
propostos pelas Tecnologias da Informação
e Comunicações. Transparência, evidência,
velocidade, conformidade e relevância são partes
essenciais da oferta que o governo faz à sociedade,
e todas elas – em maior ou menor grau dependendo da
destinação - estão presentes na aplicação
possível dessas tecnologias no serviço público.
A partir disso, claro está que, para ocorrer deverá
existir clareza de propósito e firme intenção,
nada mais...