Entrevistamos
Manoel Luis Freire Belem, consultor sênior
em planejamento estratégico de negócios apoiados
em tecnologia da informação, diretor da MB
Consulting e parceiro da Camara-e.net no
atendimento e desenvolvimento de negócios para empresas
internacionais no Brasil.
O Brasil é, hoje, um país receptivo
aos negócios digitais e ao desenvolvimento das TICs?
Pode-se dizer que sim, mas um país com 180 milhões
de habitantes, PIB de U$ 600 bilhões concentrados
em 10% de sua população, vagas sobrando em
universidades supletivas, com U$ 30 bilhões em infraestrutura
ociosa de Telecom e 400 mil médias e pequenas empresas
alijadas do mundo digital, certamente, não está
bem. O Brasil é um país de paradoxos. A questão
básica capitalista está atendida: existe uma
grande capacidade de oferta e um grande mercado (ainda que
potencial), mas precisamos trabalhar questões de
base.
Como vender e comprar TI num cenário tão
adverso?
Existe espaço para quem faz bem. Pouca gente faz
bem. É fundamental, por exemplo, extinguir vícios
e cacoetes de ambas as partes envolvidas no processo. Uma
ilustração: vendedores devem abandonar definitivamente
a linguagem do jargão técnico e ofertar serviços
integrados ao invés de produtos separados. Por outro
lado, o comprador deve se conformar apenas com o entendimento
conceitual do produto, evitando a discussão técnica
detalhada. Ninguém, quando assina um contrato de
telefone fixo, fica perguntando detalhes técnicos
da rede da operadora telefônica.
Qual o caminho para a operação destas
e outras mudanças fundamentais na maneira de se fazer
negócios no setor de TI em nosso país?
Cada um deve dar sua contribuição. Temos,
por exemplo, um workshop itinerante para associações
e entidades de classe ou regionais, cujo tema é “Gestão
de TI para Empreendedores Brasileiros”, através
do qual procuramos esclarecer o pequeno empresário
da importância do emprego das tecnologias da informação
e comunicação em seus negócios.
É este o viés para a superação
da crise pela qual passamos?
Não é conveniente falar em crises. Elas existem,
afinal, desde a decisão da colonização
portuguesa. A palavra foi incorporada ao cotidiano brasileiro
para justificar a inércia conveniente, presente em
todas as áreas: política, financeira e empresarial.
Trabalhar e integrar as PMEs significa dar aos investidores
o que eles esperam, e hoje só encontram nas grandes
empresas, que passam muito bem, obrigado. O desenvolvimento
das PMEs é, sem dúvidas, umas das chaves para
a superação de nossa crise de meio milênio,
e o emprego das TICs um dos preceitos fundamentais a este
desenvolvimento.
Falamos aqui de mudanças culturais na maneira
de se enxergar e fazer negócios em nosso país.
O Sr. poderia citar exemplos de ações práticas
já implementadas que facilitam estas mudanças?
Veja, por exemplo, que as entidades financeiras obrigaram
os usuários comuns a utilizar os caixas eletrônicos
de maneira quase compulsória para saques, depósitos
e consultas. Isso, além de obrigar o contato do cidadão
com ferramentas tecnológicas, envolve no processo
uma rede de telecom, hardware, software e segurança
eletrônica. Tudo isso é fornecido por alguém.
Temos ainda o e-procurement e os leilões eletrônicos,
que já permitem ao governo a economia de milhões
de reais. A receita Federal está impondo a utilização
de certificado digital para fazer declaração
via Internet.
Tudo isso, aliado a simples analogias cotidianas, como
mostrar as semelhanças entre correio convencional
e e-mail, ajuda a desmistificar o “bicho de sete-cabeças”
chamado tecnologia.
O que mais pode ser feito neste sentido?
Devemos, basicamente, mostrar que a Sociedade de Informação
pode concretizar o real milagre brasileiro através
da intensa utilização de tecnologia de acordo
com nossas legítimas necessidades, gerando riquezas
distribuídas de forma mais democrática.