Entrevistamos
Paulo Henrique Lima, Diretor Executivo
da Rits - Rede de Informações
para o Terceiro Setor.
Como o terceiro setor enxerga e trabalha a questão
da Inclusão Digital?
O terceiro setor é um grupo muito heterogêneo. São associações
civis, organizações não-governamentais, fundações empresariais
e o conceito pode, alguma vezes, ser ampliado para outras
formas de associação. Posso ser mais preciso comentando
experiências das organizações não-governamentais e, em especial,
como a Rede de Informações para o Terceiro Setor (Rits)
vem promovendo a discussão.
Nós atuamos em duas frentes: uma com ações práticas (telecentros
comunitários e projetos de inclusão digital para pequenas
ONGs), outra com ações políticas (advocacy por uma política
pública de inclusão digital no Brasil). A Rits é parceira
na gestão dos telecentros
comunitários da cidade de São Paulo (mais de cem em
atividade), que, com software livre, comprovam a eficácia
do modelo, atendendo mais de trezentas mil pessoas por mês.
Estamos fazendo uma experiência-piloto com telecentros comunitários
na Amazônia paraense, numa parceria com o Projeto
Saúde & Alegria no Rio Tapajós, com apoio do programa
Gesac, do Ministério das Comunicações, para a conectividade
via satélite. E estamos apoiando, com a difusão de
nosso modelo de atuação, o município de Niterói e o estado
do Paraná. Publicamos em novembro passado a cartilha
Telecentros
comunitários para o desenvolvimento humano, em parceria
com outras organizações latino-americanas. O trabalho (disponível
para download)
pretende ser referência para comunidades, entidades civis,
iniciativa privada e governos genuinamente interessados
na inclusão digital como um componente essencial ao desenvolvimento
humano. No campo da ação política, a Rits vem participando
ativamente da reformulação do Comitê Gestor da Internet
no Brasil, mantendo contato estreito na análise das políticas
públicas que estão sendo gestadas no governo brasileiro,
com espírito crítico e autonomia, e veiculando as informações
através do Observatório
de Políticas Públicas de Infoinclusão.
A união de governo, empresariado e terceiro setor
seria o viés para a ampliação de projetos como o dos Telecentros,
contribuindo para a infoinclusão no Brasil?
Uma ampla ação de implementação de telecentros comunitários
em nível nacional, para ser sustentável política e economicamente,
tem que levar em consideração essa equação. Hoje,
em São Paulo, algumas empresas já "adotam" alguns
telecentros. A Vivo saiu na frente e é um apoio significativo
ao projeto. Contudo não se pode esquecer que os telecentros
têm que ter participação da comunidade para que sejam elementos
efetivos de transformação social. É aí que desempenham
um papel indispensável as ONGs e associações civis locais.
Um Conselho Gestor do Telecentro e uma forte articulação
comunitária são fundamentais para que o telecentro seja
incorporado como patrimônio daquela comunidade, sendo capaz
de superar a alternância política que muitas vezes descontinua
importantes projetos, assim como o tempo necessário para
que a comunidade venha a se beneficiar das possibilidades
proporcionadas pelas tecnologias de informação e comunicação.
Como a Camara-e.net e outras entidades do setor
podem contribuir nesta união?
Uma campanha entre as empresas associadas
para "adoção" de telecentros, doação
de equipamentos, doação de banda Internet (a
última milha é um dos gargalos da sustentabilidade
do telecentros) e com voluntários para a formação
em noções básicas de informática
e uso de Internet seria, claramente, uma grande contribuição
que o setor privado poderia trazer. Algumas associações
e ONGs podem receber doações dedutíveis
do imposto de renda, e esse caminho é muito pouco explorado
nesta relação entre setor privado e sociedade
civil organizada. A retomada deste debate por uma entidade
como a Camara-e.net seria de grande valia.