Nesta
semana, nossa entrevista é com Patrícia
Peck, especialista em Direito Digital, que participou
de curso na Coréia, proporcionado pela Development
Gateway Foundation-Korea Training Center, por indicação
da Camara-e.net.
Como foi a experiência de participar do curso de e-Business
Model and Strategy na Coréia?
Fiquei impressionada e surpresa com o que vi na Coréia.
Alem de o curso ser muito bom, muito bem organizado e estruturado,
fizemos visitas a empresas como Samsung, LG Philips, LG
CNS, e-Sang Network, CJ Mall, entre outras. Foi possível
ter uma visão real do quanto não apenas a
tecnologia está avançada na Coréia
e em toda e-Asia, como chamam, como também em termos
educacionais, pois há uma participação
considerável do Governo no desenvolvimento da cultura
digital e de sociedade da informação entre
os coreanos, com incentivos para comprar online, ter banda
larga gratuita, ter wap-bank, entre outros.
O que já existe e o que pode ser feito na
questão da integração Brasil-Coréia
na área de tecnologia?
Apesar de o Brasil ser visto como uma potência, não
estamos na prioridade de pauta de integração
tecnológica. O foco atual da Coréia é
a integração com a Ásia, principalmente
China, Singapura e Japão e com a Comunidade Européia.
Tivemos acesso ao projeto chamado e-Asia, que é a
construção de um meta-mercado de E2G (empresa-governo)
e B2B (empresa-empresa), através do qual todo o credenciamento
de exportação e importação,
transações entre empresas e governo dos países
participantes passam por uma estrutura central de bancos
de dados, que não apenas autentica, como garante
a segurança e privacidade dos dados, interpreta a
adequação do policy mercantil perante as legislações
dos países envolvidos de modo automático e
viabiliza crédito financeiro e seguro. Há
7 mercados para serem montados assim e estão na Europa,
na Ásia, no Canadá, nos EUA, no Oriente Médio,
mas não há nenhum representando a América
Latina. Aí há uma oportunidade para o Brasil
assumir esta frente e ser o Meta Mercado da região.
Tive a impressão que se não nos posicionarmos,
o México irá assumir esta posição.
Qual a importância de iniciativas como esta
da Camara-e.net, no sentido de desenvolver parcerias entre
organizações do mundo todo e contribuir para
o compartilhamento de informações importantes
do setor de TI e Comércio Eletrônico?
A Camara-e.net tem um papel de suma importância, por
ser a única entidade brasileira capacitada a representar
os interesses das empresas e governo, frente as questões
de competição tecnológica na Sociedade
Digital que estamos criando. É muito importante ter
uma entidade como interface junto a outros países
para questões de TI e da sociedade da informação.
A maior parte dos países que participaram do curso,
13 no total, enviaram representantes de governo, devido
à prioridade da pauta de sua inclusão digital.
Se não tivermos cuidado e atenção constantes,
perderemos esta corrida, a nova corrida do ouro, onde o
ouro são Dados. Além disso, corremos o risco
de ficar para trás na disputa do mercado mundial
de software; tive a oportunidade de ver, que na Coréia,
isso é tema de estratégia de Estado. O PhD
Inuk Chung disse em nosso curso, que a Coréia investe
em tecnologia por não possuir recursos naturais,
pois se nesse mercado não se promover o crescimento
econômico, isso não acontecerá de nenhuma
outra forma. Temo que o Brasil, pelo excesso de divisas
naturais, acabe deixando de lado esse importante mercado,
que é o grande gerador de postos de trabalho e insumos
neste novo século.
Algum comentário final?
Gostaria de levantar a questão do Direito Digital,
já que sem o devido tratamento legal, auto-regulamentação
e leis destinadas ao fomento de TI, não estaremos
aptos a competir com esses novos gigantes, renascidos dentro
de uma política educacional severa, com Leis sobre
Segurança dos dados e Privacidade. Imagine o cenário
com a tendência do que chamam lá de U-Computing,
ou seja, "ubiquitous technology", do latim "transparente",
e as redes Wi-Fi, onde tudo está conectado! Estas
questões assumem relevância máxima e
tornam-se estratégicas pra o desenvolvimento sustentável
do Brasil Digital. Se a maior riqueza, hoje, está
em ativos intangíveis (marca, bancos de dados, softwares,
tecnologias), é primordial que o Brasil adote uma
postura séria frente à regulamentação
destas questões. Não há como expandir
o consumo online, sem uma atuação forte para
coibir as fraudes eletrônicas, o mau uso dos dados
captados na Internet, da própria tecnologia do email,
que gera o SPAM, e assim por diante. As empresas são
responsáveis por este processo, e pela formação
do usuário em uma cultura de segurança de
informação. Das 50 maiores economias do mundo,
30 são empresas. Portanto, quer seja na Política
Eletrônica Corporativa ou nas interfaces gráficas
com uso de selos de segurança e privacidade, há
muito o que fazer dentro de casa. Precisamos exigir a criação
de uma identidade digital única, com certificação,
para que realmente seja quebrada a barreira do medo que
paira sobre o desenvolvimento da economia digital. Isso
vale para atender às questões de e-Gov, que
ganha com declarações de IR por Internet,
e também do mercado financeiro, que se beneficia
com a redução de custos operacionais pelo
uso de canais eletrônicos. Não basta ter projetos
de inclusão digital, é preciso investir em
educação digital.