Entrevistamos
Ali Chahin, Maria Alexandra Cunha,
Peter Knight e Solon Lemos Pinto,
autores do livro e-gov.br:
a próxima revolução brasileira.
>Como foi o processo de concepção
e produção do livro e-Gov.br?
Ali Chahin: O tema 'Governo Eletrônico'
é uma daquelas unanimidades que aparecem na história
da humanidade, passando sobre referenciais culturais, econômicos
e sociais, firmando-se como importante instituição
do século XXI. Inovadores cientistas, políticos,
empresários e os próprios cidadãos
estão enaltecendo sua necessidade e importância.
Em novembro de 2002, alguns amigos militantes do novo governo
que assumiria em janeiro de 2003 solicitaram que eu fizesse
um diagnóstico do Governo Eletrônico Brasileiro
e uma proposta de trabalho para o Governo Lula.
Convidei o amigo Peter T. Knight (ex-Banco Mundial e presidente
da Telemática e Desenvolvimento Ltda., RJ) para fazermos
o trabalho, que foi entregue no início de janeiro
ao Governo Federal (Ministro José Dirceu) e logo
em seguida a outros Ministros (Guido Mantega, Miro Teixeira,
Cristovam Buarque) e Secretários. Este trabalho foi
uma contribuição ao novo governo, sem qualquer
ônus.
Redigir este trabalho foi tão motivador, e o mercado
estava tão carente de uma literatura específica
nesta área, que idealizei escrever um livro. Faltava
este livro, não conhecia nenhum livro brasileiro
neste segmento de governo eletrônico. Comecei a delineá-lo
e convidei o Peter para escrevermos, organizarmos juntos
e colocarmos alguns casos no livro. Ele aceitou.
Convidamos o Solon Lemos Pinto (ex-secretário de
Logística e TI do Ministério do Planejamento,
Orçamento e Gestão e atual Diretor de Negócios
da Brisa) e a Maria Alexandra Cunha (Assessora da Presidência
da Celepar, responsável pelo e-parana, especialista
em governo eletrônico e Professora na PUC-PR). Completamos
aí o time de autores.
Passamos, nessa etapa, a estudar quais seriam os casos
mais interessantes. Inicialmente seriam 8 a 10 casos, mas
a cada revisada percebíamos que poderíamos
fazer melhor, mais completo, então o livro foi crescendo.
Fomos dando ênfase em todas as áreas envolvidas
no e-gov. Todas as regiões do Brasil têm suas
experiências no Livro. Todos os casos foram checados
por diversas vezes, mas o resultado foi gratificante.
Contatei e propus à Editora Pearson Education editar
a obra. O seu Diretor Editorial José Braga, com sua
experiência, visão e “feeling”
apurado nos deu a oportunidade e não mediu esforços
para chegarmos aqui com um livro de qualidade.
O livro é composto por duas partes. A primeira conta
os antecedentes e analisa o e-gov no Brasil e no mundo,
onde propomos princípios que nortearão a futura
evolução do e-governo no Brasil e sugerimos
prioridades para essa evolução. A segunda
parte contém 29 relatos de 40 colaboradores, com
experiências de sucesso em todas as regiões
do Brasil que servirão como referência em e-gov.
Mostramos no livro como a revolução tecnológica,
aliada à vontade política por mudança,
vem afetando todos os níveis da administração
pública no Brasil, apresentando, com detalhes, as
transformações geradas pela tecnologia nos
parâmetros das relações políticas,
econômicas e sociais do país.
O livro tem prefácio de Carlos Primo Braga, Assessor
Sênior do Banco Mundial (escritório de Genebra)
e vários endossos, como de Ivan Moura Campos, do
ICANN, Cid Torquato da Camara-e.net, Norman Gall do Instituto
Fernand Brundel, Al Fishlow, Richard Heeks, Werner Baer,
catedráticos em Universidades americanas e européias,
brasilianistas especialistas em governo e democracia eletrônicos.
Todos são nossos amigos e parceiros na empreitada
de apresentar aos cidadãos o que há de mais
avançado, eficiente e democrático em governo
eletrônico no Brasil e no Mundo.
>Que público buscam atingir?
Ali Chahin e Peter Knight: Claramente
estamos contribuindo e assistindo a grandes mudanças,
movimentações e evoluções significativas
em todas as áreas do Governo. Seu impacto altera
a vida e o trabalho dos cidadãos, as atividades das
organizações e, mais intensamente, o modo
do governo atender aos seus cidadãos. O e-gov é
a resposta à sociedade que já está
exigindo do governo não somente informações,
mas serviços ágeis, personalizados e na mesma
qualidade que recebem de outros setores, como o privado.
Por isso buscamos atingir os cidadãos de modo geral
e profissionais relacionados de alguma forma ao e-governo,
consultores, acadêmicos (professores e estudantes)
com interesse no tema e estudiosos dos assuntos econômicos,
sociais e tecnológicos brasileiros e latino-americanos.
Da mesma forma, reforçar conceitos e intensificar
a troca de conhecimentos nos segmentos interessados no desenvolvimento
de políticas públicas, como políticos,
economistas, empresários, líderes de ONGs,
sindicalistas, entre outros.
>Qual é a importância das iniciativas
de e-Gov para a modernização do Estado?
Maria Alexandra Cunha: As iniciativas
de governo eletrônico são importantes para
a modernização do Estado pois permitem:
- Maior eficiência: o Estado fazer mais, melhor,
mais barato e mais rápido. E os meios tecnológicos
permitem fazer coisas que sem eles não seria possível.
O comprasNet federal (relatado no livro) é um bom
exemplo, como você conseguiria disponibilizar on-line
uma licitação a todos os fornecedores do governo,
e tornar o processo transparente, sem o uso de tecnologia
de informação? Processos mais eficientes,
a custos menores.
- Maior eficácia: na medida que os meios eletrônicos
são úteis para que os governos possam melhorar
a capacidade de formulação das políticas
públicas, podem acompanhar a sua implantação
às vezes em grandes territórios e atingindo
grandes populações, monitorando indicadores
e avaliar se os resultados pretendidos em termos de melhoria
nos indicadores sociais foram alcançados.
- Integração: Os meios eletrônicos
permitem a quebra de muros entre governos, ou entre poderes.
A política de educação tem atores federais,
estaduais e locais, idem recursos, e ela deve ser integrada
nesses níveis. Não é possível
essa integração sem os meios eletrônicos.
Mas, uma política pública muitas vezes envolve
diversas áreas como saúde, educação
, trabalho, meio ambiente, nas várias esferas, e
ainda outros atores sociais além do governo. Integração
dos governos revendo estruturas e processos de funcionamento,
o que é uma tarefa árdua mas de resultados
impactantes e duradouros.
- Transparência: Esta é obrigação,
o governo tem que abrir sua atuação à
população, informando desde os seus processos
internos até os resultados globais que se pretendiam
e os que foram alcançados.
- Melhoria na gestão de recursos: Controle inteligente,
acompanhamento, monitoramento do uso dos recursos públicos.
Alocá-los onde são mais necessários
e onde mais fazem diferença.
- Participação: Muitos estados e municípios
têm experiências de sucesso no uso de meios
eletrônicos para aumento da participação
do cidadão na prática democrática,
seja no legislativo ou nas ações do executivo.
Consultas públicas e orçamento participativo,
são exemplos de práticas que têm sido
bem exercitadas. Mas pode-se ir além, ampliar o exercício
da cidadania.
- Melhor prestação de serviços: Inovação
na prestação de serviços. Cidadãos
e empresas relacionando-se com um governo que os atenda
24 horas por dia, 7 dias por semana, num ponto de acesso
público ou privado. Atendimento on-line, de qualidade,
a qualquer hora, em qualquer lugar. A partir da Internet,
mas não só, poderá ser o contato a
partir de um orelhão para um call-center de atendimento
do governo, pode ser uma agência integrada de governo,
física, pode ser pelo telefone celular e, um dia,
a TV digital. Enfim, prestação de serviços
ao cidadão por qualquer meio digital, usando tecnologia
da informação e comunicação.
- Melhor educação e treinamento: A educação
pode ser alavancada, com os recursos da educação
a distância (que não é só Internet).
Educação on-line para capacitação
dos servidores governamentais, (como os casos relatados
no livro da Universidade Corporativa da Previdência
Social e da formação continuada de agentes
educacionais no estado de São Paulo) ou na formação
da população (como os casos do livro que relatam
a TV Escola federal, as escolas públicas no Estado
do Espirito Santo ou a educação superior a
distância no Rio de Janeiro).
>Qual é a importância do e-Gov para
o fortalecimento da Economia Digital no país?
Peter Knight: Acredito que a “Economia
Digital” deve ser definida amplamente: incluindo a
produção e venda de equipamentos, software,
e-comercio, e-learning, e-saude, e- procurement dos governos
e das empresas e o fomento à inclusão digital.
O e-Gov pode e deve dar grandes resultados, regulatório
e de incentivos (fiscais e outros), criando um ambiente
que favoreça o crescimento da economia digital com
a convergência entre computadores, televisores e telefones
(todos operando com sistemas digitais usando os protocolos
TCP/IP). Dessa forma, a economia digital cresce e entra
em todos os aspetos da economia, aumentando a competitividade
de indivíduos, empresas, cidades, estados e do Brasil.
A inclusão digital é fundamental para que
a economia digital leve seus benefícios a todos,
democraticamente.
>Vocês não acham que as iniciativas
de e-Gov nos planos federal, estadual e municipal estão
muito pouco alinhadas?
Solon Lemos Pinto: Realmente as iniciativas
de e-gov nos planos federal, estadual e municipal estão
desalinhadas, mas há um razoável alinhamento
conceitual. O que não há é capacidade
gerencial e "massa crítica" de profissionais
especializados e recursos orçamentários suficientes
nos diferentes níveis de governo. Já se notam
programas de modernização da gestão
pública dos estados, com financiamento internacional
e coordenadas pelo Governo Federal, que contemplam ações
de governo eletrônico mais uniformizadas. Os programas
de modernização municipal ainda não
estão com resultados significativos.
>Por favor, pedimos algumas sugestões
para o aprimoramento das iniciativas de e-Gov no Brasil?
Peter Knight: O governo federal poderia
(e na minha opinião deveria), usar seu poder de compra
para alugar a um preço bom ou até comprar
transponders em vários satélites permitindo
cobertura completa do território nacional, duas ou
mais estações terrestres mestres (hubs) em
Brasília e permitir que todas as agências federais
e os governos municipais e estaduais façam uso do
“segmento espacial” e acesso à espinha
dorsal (backbone) de fibra ótica da Internet grátis
ou a preços subsidiados. Seria um tipo de GESAC ampliado
e acelerado, facilitaria um mutirão de inclusão
digital em nível nacional.
Para tal é fundamental a colaboração
entre órgãos do governo federal para evitar
múltiplos contratos a preços maiores e diversos
com as companhias de telecomunicações. Então,
os municípios, ONGs e outras organizações
de interesse social em qualquer parte do território
nacional poderiam comprar antenas (estas custam na ordem
de R$3.000 que permitem comunicação em duas
vias, via satélite de dados, voz e imagens), construir
telecentros e centros de aprendizagem com computadores em
rede local cabeada ou sem fio ligados à Internet
via satélite. Estes telecentros pagariam os custos
locais de construção, treinamento e manutenção
usando recursos próprios ou doados. Estes mesmos
centros poderiam servir para capacitação de
funcionários locais de agências governamentais
federais como o INSS, ou de professores, médicos,
enfermeiras, policiais, juizes e outros funcionários
de governos municipais e estaduais que precisam de capacitação
permanente. O uso dos centros para tais fins governamentais
de interesse federal justificaria a facilitação
da conectividade a custo baixo ou nulo para os municípios
e estados que ainda não têm acesso fácil
à Internet, por exemplo, em zonas rurais, na Amazônia,
etc.
Este sistema permitira acesso online a um grande número
de serviços governamentais em qualquer parte do país,
mesmo nos lugares mais afastados. Mas também estimularia
o crescimento da economia digital numa forma equilibrada.
Outra área que precisa atenção é
a interoperabilidade de serviços municipais, estudais
e federais através de portais integrados. Esta é
uma tarefa difícil tanto tecnicamente como política
e burocraticamente, mas é necessária, porque
ao cidadão pouco importa a agência ou instâncias
da federação com os quais tem que interagir
para resolver um problema – o certo é poupar
o tempo do cidadão, dar transparência, e enxugar
os aparatos governamentais de trâmites e pessoal desnecessários
para dar os serviços que os cidadãos necessitam,
assim potencialmente reduzindo a carga tributária
excessivamente onerosa.
>Como aumentar o acesso da população
às ferramentas de governo eletrônico?
Ali Chahin: O mapa da exclusão
digital no Brasil cresce e preocupa. Atinge 150 milhões
de brasileiros à margem dos benefícios da
sociedade da informação. Esta estatística
foi apresentada pelo relógio da inclusão digital,
da Fundação Getúlio Vargas sobre dados
da Pesquisa por Amostra de Domicílios (PNAD), do
IBGE e revela que nos anos de 2001/2 somente 8,46% dos domicílios
brasileiros estavam conectados à Internet. Isto é
grave e só agora os Ministérios do Planejamento
e das Comunicações e a Anatel estão
se movimentando conjuntamente para a redução
desta exclusão.
Hoje exclusão digital é a maior preocupação,
e mesmo com iniciativas isoladas do governo, este combate
está longe de ter fim. A necessidade dos órgãos
públicos oferecerem serviços de melhor qualidade
prezando a agilidade e universalização dos
mecanismos é ainda um desafio para eliminar a exclusão
digital.
Após operação conjunta do Ministério
das Comunicações com o Tribunal de Contas
da União (TCU), a Anatel criou o Serviço de
Comunicações Digitais, que permitirá
a utilização da verba do FUST que já
chega a mais de R$ 3 bilhões. O resultado foi um
avanço no conceito de universalização
dos serviços de telecomunicações para
além da voz comutada, com a criação
de concessões para prestar serviços em banda
larga. As novas prestadoras podem utilizar meios, como a
rede telefônica e de TV a cabo, e de tecnologias inovadoras,
como voz sobre IP. A prioridade é atender à
necessidade de 180 mil escolas públicas, que serão
equipadas com computadores e acesso à Internet.
Apresentamos em nosso livro o exemplo do Sampa.org, que
tem 82 telecentros incorporados à prefeitura de São
Paulo. As prefeituras de SP, BH e Recife foram pioneiras
na inclusão digital, seguidas de projetos federais,
como a Rede Jovem (Socinfo) e os telecentros de informação
e negócios do Ministério do Desenvolvimento
em parceira com o Sebrae.
De acordo com a Secretaria de Tecnologia Industrial do
Ministério do Desenvolvimento, o objetivo dos telecentros
é incluir 3,5 milhões de PMEs (pequenas e
médias empresas) que possuem micros, mas ainda não
acessam a Internet. Cada telecentro é composto por
11 computadores (sendo um servidor) conectados em rede com
acesso à Internet, uma impressora e um scanner. Os
cidadãos acessam a capacitação e formação,
comércio eletrônico, consultoria, busca de
informações na Web e serviços públicos
e privados.
O governo concorda que a divisão digital está
diretamente relacionada às desigualdades sociais
e têm propostas concretas. A renda é o que
mantém crescente o gap nas populações
mais carentes e, junto com o crescimento econômico,
é o grande desafio do País para permitir o
seu acesso às tecnologias da informação.
A Anatel aponta a renda do brasileiro como principal fator
de impedimento à inclusão digital, e acha
que a solução passa pelo acesso coletivo (telecentros,
quiosques, terminais públicos). O custo para implantação
do acesso individual à Internet nestas condições
de renda é muito alto.
As políticas públicas para inclusão
digital passam pelo foco regional e pelo investimento nas
escolas para permitir o acesso aos estudantes desde cedo
às tecnologias. A pobreza e a exclusão são
cruéis com crianças e adolescentes que representam
ainda quase 50% dos cidadãos totalmente excluídos
socialmente e é dramático fora das grandes
cidades.