Entrevistamos esta semana Sérgio Campos, Ph.D. Associate Professor da UFMG.
1. Por que tanta polêmica sobre software livre x proprietário?
Existem duas questões importantes. A primeira diz respeito à ideologia do software livre. Ela é uma ideologia de liberdade, de falta de restrições, de compartilhamento de todos os bens. É uma filosofia de grande apelo. É mais do que uma filosofia "teórica". O software livre efetivamente funciona em grande parte desta forma, e esta forma de trabalhar tem gerado resultados fantásticos. Por causa disto, os "fãs" do software livre normalmente pensam que esta mesma ideologia pode ser aplicada em qualquer situação. Aquelas pessoas acostumadas a trabalhar de uma forma mais "comercial" resistem à filosofia do software livre aplicada de forma pura.
A segunda questão importante diz respeito às empresas como a Microsoft. Ela é a maior, mas não é a única a sofrer os efeitos. Concentrando na Microsoft pelo momento, vemos que é uma empresa gigantesca e extremamente lucrativa. Contudo, seu faturamento depende em grande parte da venda do sistema operacional Windows e de seu aplicativo Office.
O software livre apresenta uma alternativa a ambos que é igualmente eficiente (ou quase, se quisermos ser conservadores), mas muito mais barata. Desta forma, o software livre é uma ameaça a médio e longo prazo a este tipo de empresa. Como se de repente fosse instalada no Brasil uma malha ferroviária que permitisse ir do Rio a São Paulo em 3 horas confortavelmente de trem sem ter que se deslocar a aeroportos, esperar em salas apertadas e etc. Muitos usuários de aviões ficariam tentados a trocar aviões por trens, e eventualmente o mundo dos transportes teria que se ajustar. O mesmo acontece com o mundo do software com a chegada do software livre.
Não se deve esquecer que a Microsoft não é a única empresa a sentir o efeito do software livre. Há outras empresas, como a Sun que comercializa o sistema operacional Solaris, a Oracle que tem concorrentes livres como o MySQL (muito embora o MySQL não concorra ainda com o Oracle nas aplicações "High End"), e até a IBM, que comercializa outros sistemas operacionais. Cada empresa trata do tema de forma diferente, por exemplo, a IBM abraçou o Linux como uma opção de sistema operacional para seus produtos e tem sido bastante ativa no mundo do software livre.
É importante lembrar que esta questão se coloca neste momento por uma razão específica. O software livre já existe há muito tempo, mas ele sempre foi de difícil utilização, o que impedia seu uso por não especialistas. Recentemente suas interfaces com o usuário tornaram-se muito melhores e as comparações inevitáveis começaram a serem feitas, e os usuários começaram a considerar a troca e a fazê-la.
2. Quais as vantagens e desvantagens de cada um?
Tecnicamente o software livre é superior. É mais robusto, mais flexível, menos sujeito a invasões e vírus. Mas o software proprietário também funciona de forma adequada na maioria dos casos, e a discussão mais interessante sobre vantagens e desvantagens passa somente tangencialmente pela questão puramente técnica.
A principal vantagem do software livre é seu baixo custo e sua flexibilidade. O software livre não necessariamente é gratuito, e passa a ser cada vez menos gratuito, uma vez que os usuários têm que pagar pelo suporte e manutenção do seu software livre, assim como o faz com o proprietário. Mas o custo final é significativamente menor, uma vez que existe competição (todos os fornecedores podem oferecer o mesmo software), e que se cobra somente pelo suporte e não pelo desenvolvimento do software original (este sim, gratuito).
Além disto, a flexibilidade do software livre também diminui custos, como exemplificado pelo nosso projeto do computador popular. Por ser código aberto, pudemos adequar o software para rodar em um computador sem disco rígido, diminuindo o valor do mesmo no preço final. Desta forma podemos adequar o software livre para um maior número de aplicações de forma mais eficiente, reduzindo ainda mais o custo. Com o software proprietário é como se comprássemos um equipamento feito para climas frios que não funciona em climas quentes sem ar condicionado. Desta forma precisamos comprar um ar condicionado e arcar com os custos de energia para o mesmo. Com o software livre é como se pudéssemos adequar o equipamento para funcionar sem ar condicionado diminuindo custos. Resumindo, o software livre é muito mais barato e tende a continuar desta forma através de sua flexibilidade.
O software proprietário por sua vez também oferece algumas vantagens. São duas principalmente. No mundo do software livre existem normalmente inúmeras opções de software para cada tarefa. Meus exemplos favoritos são editores de texto masculinos (joe) e femininos (kate). O usuário que deseja usar software livre freqüentemente não sabe escolher qual opção utilizar, e com isto pode se sentir intimidado pelo mundo do software livre. A outra vantagem do software proprietário é ironicamente o oposto da anterior. A quantidade de softwares existentes para o ambiente Windows é muito maior que a do ambiente Linux. No mundo Linux existem muitos softwares para a mesma tarefa, mas no ambiente Windows existem softwares para um número maior de tarefas. Por exemplo, é bastante difícil achar um software de gerência de pequenas empresas em Linux. Por causa disto, em muitos casos torna-se necessária a utilização de software proprietário, por inexistir ainda soluções em software livre para determinadas tarefas.
É importante notar que a medida em que o tempo passa as vantagens do software proprietário tendem a se tornar menores, uma vez que o desenvolvimento de softwares para novas aplicações tem crescido no mundo do software livre. E escolher entre as múltiplas opções de software torna-se mais fácil à medida que fornecedores de software livre passam a oferecer consultoria a usuários finais sobre as escolhas mais apropriadas.
3. Eles são excludentes ou vão coexistir?
Os softwares proprietários e livres vão coexistir por um longo tempo, talvez para sempre. Não adianta querer trocar o software de todos os computadores ao mesmo tempo, isto causa uma ruptura muito grande em qualquer instituição, o que não é desejado. A substituição deve ser gradual, e ao longo dela ficará claro que, em algumas aplicações, o software livre predominará, e em outras o software proprietário deve continuar forte.
É necessário entender isto e tentar harmonizar os ambientes. Felizmente, eles coexistem de forma "pacífica", graças ao esforço dos desenvolvedores de software livre. Os desenvolvedores de software proprietário tendem a ser menos "amigáveis", pelas raízes expostas anteriormente.
4. É possível forçar a adoção de software livre como vem pretendendo o Governo?
O governo tem um papel fundamental na adoção de software livre. O país deve decidir qual caminho deve seguir e se preparar para isto. O software livre é vital para o Brasil desenvolver uma indústria de software forte e independente. Por causa disto, o governo tem a obrigação, na minha opinião, de incentivar o uso de software livre sempre que possível.
Dito isto, deve-se entender as questões expostas acima sobre a migração de softwares proprietários para livres. Não adianta tentar simplesmente forçar o usuário a trocar. Deve-se implantar uma política de incentivo que garanta o crescimento do uso de software livre sem que isto cause uma ruptura.
Diversas políticas podem ser implantadas, por exemplo, podem-se oferecer vantagens a fornecedores que usem software livre. Uma forma de incentivo pode ser usar a adoção de software livre como pontos adicionais para decidir o vencedor de uma licitação. Ou então oferecer incentivos fiscais, ou financiamentos especiais para empresas que usem software livre. Algumas destas medidas estão sendo tomadas pelo governo atual.
O que não se deve fazer é usar ao contrário o mesmo raciocínio usado até agora. Até recentemente o governo incentivava o uso de software proprietário através de um mecanismo que dizia que se a base instalada de um software é acima de X% então a compra de mais cópias dispensa licitação. Ou então através do oferecimento de serviços do governo somente na plataforma proprietária, como por exemplo o programa de imposto de renda existindo somente para a plataforma Windows.
Existe uma tendência no governo de inverter este raciocínio e tentar "obrigar" o uso de software livre. Creio ser este um raciocínio errado, pois nos faz cair na mesma armadilha dos adversários, de usar preconceito ao invés de raízes claras e objetivas para fazer a troca. Este caminho perigoso pode levar a distorções e ataques à política do governo até mesmo de pessoas que concordariam com o uso de software livre em outras condições. Espero que o governo brasileiro diminua este tipo de ações e aumente o tipo anterior.
5. Afinal, o que o usuário deve fazer no meio desse tiroteio?
Procurar um fornecedor de software livre e conversar seriamente sobre a adoção do mesmo. O usuário pode se surpreender com o estado atual do software livre e em quão eficiente ele pode ser. O usuário deve entender que o fornecedor deve ser sério e competente, e deve ser remunerado corretamente. Ainda assim vai economizar dinheiro.
Se após procurar um fornecedor não o achar, ou não ficar satisfeito com o resultado, resolva seu problema com o software proprietário. Mas sempre fique atento às mudanças no mercado, pois o software livre veio para ficar.
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