Nesta semana, nosso entrevistado é Silvio Sakata,
da Diretoria de Soluções Eletrônicas
para a micro, pequena e média empresa do Banco
do Brasil.
Como avaliar a importância da participação
da Micro, Pequena e Média Empresa - MPME na economia
de um país?
A importância se reflete pelos números
de empresas formais no Brasil, de um total de 4,6 milhões,
99% são Micro e Pequenas Empresas, que movimentam
ao ano mais de 300 bilhões reais, empregam mais de
14 milhões de pessoas com carteira assinada e representam
28% do PIB. Dessa forma, a socialização completa
desse mercado na economia significa transformar o Brasil
num país de primeiro mundo.
Quais incentivos vêm sendo realizados, no
âmbito público e privado, para que
esta participação se torne cada vez mais importante?
O cenário atual de reforma tributária
e fiscal com propostas de unificação de alíquotas
e alteração de recolhimento de impostos para
a Micro, Pequena e Média Empresa - MPME
(projeto de Lei que o executivo encaminhou ao Congresso
Nacional) já um avanço importante no que eu
chamo de Governança Pública. Este modelo,
na verdade, já foi muito trabalhado no Governo passado
e está sendo reformulado, ou seja, está acontecendo
a priorização de ações; isto
é muito bom, pois este movimento cria um ambiente
propício aos debates, sobretudo com a participação
de entidades com missão de apoiar as MPMEs,
a exemplo do Sebrae, CNDL, FIESP, Cooperativas, Associações,
etc. O Banco do Brasil também está inserido
neste contexto, não só participando ativamente
do Fórum da Micro, Pequena e Média Empresas,
sob coordenação do Ministério do Desenvolvimento,
Indústria e Comércio Exterior - MDIC, mas
sobretudo com apoio e fomento das linhas de crédito
do Banco do Brasil (BB Giro) e financiamento
(Proger) com recursos do FAT, que possuem juros mais acessíveis
às MPMEs. Ressalto também
a parceira com o Governo Federal de Inclusão Digital
das MPMEs, com doação de
máquinas para Telecentros, implantação
de seus Pólos de Desenvolvimento Sustentável
(DRS) com agentes comunitários, participação
no projeto de cadastramento de pré-empresas (projeto
de lei comentado acima) e a bancarização das
MPMEs.
Do lado privado, os movimentos estão "linkados",
ou seja, estamos observando motivações importantes
de grandes empresas, sobretudo da área de Tecnologia
da Informação e Comunicação
- TIC, tais como MicroSoft, IBM, SUN, SID, SAMSUNG, Empresas
de Telecom, entre outras, investindo em soluções
para MPME e com projetos de apoio dos Telecentros,
Associações, Arranjos Produtivos, Cooperativas,
etc.
Todos esses movimentos convergem para o desenvolvimento
sustentado das MPMEs.
Para o Banco do Brasil, qual a importância
do comércio eletrônico para as MPMEs?
Muito alta, pois está inserido no Plano
Estratégico do BB o aumento de clientes usuários
dos canais de auto-atendimento eletrônico Internet,
tanto para correntistas pessoas físicas, como também
pessoas jurídicas - banco móvel com total
comodidade, segurança e redução de
custos para os clientes e para o banco. E as MPMEs
representam uma base significativa de usuários da
solução eletrônica de auto-atendimento
do Banco, mediante o seu Gerenciador Financeiro. Só
para se ter uma idéia, conseguimos alcançar
uma base de 500 mil clientes MPME do Gerenciador
Financeiro em 2004 (maior base interligada de rede online
bancária de auto-atendimento empresa na América
latina), atingindo a posição de 2º lugar
no "ranking" de números de transações
bancárias de canais alternativos do BB.
Assim, eu definiria que houve três ondas para uso
dos canais eletrônicos no BB - 1ª onda - massificação
dos terminais de auto-atendimento em agências; 2ª
onda - uso intensivo da Internet e Gerenciador Financeiro
(rede WEB), Cartão Crédito e Débito
e agora, mais recentemente, a 3ª onda - banco móvel
(Mobile banking) e e-commerce (balcão de negócios
no Portal do BB - Internacional, Agronegócios e e-licitações).
Nessa medida, quais esforços estão
sendo feitos? E quais são os projetos para 2005?
Com a criação institucional da Diretoria
de Micro e Pequenas Empresas no BB em 2004, há uma
série de orientações estratégias
de relacionamento para este mercado, transformando-o em
foco de negócios. Obviamente que todo este movimento
não é só do BB, pois há diversas
ações, como disse anteriormente, de Governança
Pública, fazendo com que todo o mercado dê
atenção especial às MPMEs.
Talvez no BB, pela sua própria vocação
de fomento ao desenvolvimento social do país, as
ações sejam mais visíveis, e aí
podemos citar as parcerias com o BNDES.
Nesse sentido, há diversos projetos de relevância
que iremos desenvolver em 2005, com uso intensivo da TIC,
os quais encontram-se amparados no guarda-chuva do Programa
de Inclusão Digital do Governo - Software de Gestão
Empresarial MPME, integrando nosso Gerenciador
Financeiro com as linhas de crédito para Informatização
MPME, Balcão de Negócios
MPME no Portal BB e a participação
mais intensiva da Diretoria nos APL (Arranjos produtivos
Locais), através do Micro-Crédito e novos
produtos e integração com os Pólos
de Desenvolvimento Sustentável (integração
de cadeias produtivas informais no Brasil).
Como a Camara-e.net pode contribuir neste processo?
Entendemos que a Camara-e.net
é um Fórum adequado para debates e interação
com representantes do setor, tanto privado como público,
com enfoque do uso da TIC.
Entretanto, é importante, sobretudo o engajamento
do setor financeiro (de onde vem os créditos e financiamentos)
e da telefônia (de onde vem a TIC). É preciso
criar um modelo integrado de soluções para
as MPMEs (há muitas soluções,
e boas, porém, fragmentadas no Brasil).
Em outras palavras, enxergamos que o maior desafio da inclusão
das MPMEs no mercado Internet ainda é
a cultura, além dos custos. Portanto, a Camara-e.net,
por ter uma visão de TIC, pode propor um movimento
global de inclusão digital dentro da visão
acima, envolvendo órgão de classe, agentes
de mudanças (especialistas de renome da área)
e o Sebrae.
Algum comentário adicional?
Sim, eu costumo dizer sempre que a criança
tem que dar os primeiros passos para chegar à lua.
Eu sou de uma geração que viu os grandes movimentos
de informática no brasil, desde a geração
de chips (década de 70) até os grandes PC
atuais, passando pela linguagem de baixo nível, até
as linguagens modernas (as chamadas interfaces aplicativas
com usuários). Executivo móvel atual? Puxa
vida, quem diria isso a 20 anos atrás. Quando falávamos
em padrão de protocolo de rede TCP-IP na década
de 90, ninguém acreditava.
A grande inovação hoje, além dos novos
modelos tecnológicos, obviamente (as pesquisas avançaram
muito), são apenas formas de como as pessoas vêem
e acessam as informações. A chamada sociedade
de consumo atual quer "comodidade", "rapidez"
e "visual" ou são "instigadas"
a usar novo visual, ou porque o vizinho está usando
ou algum amigo ou parente comentou, ou porque a empresa
tal começou a usar nova tecnologia. Mas, a essência
continua a mesma, ou seja, foram apenas grandes retoques
avançados na interface final (a base é a mesma)
e são "pessoas" que estão utilizando
ou precisando das informações, baseado nas
suas emoções, sentimentos, amor, ambição,
bem-estar, decisão, etc.
O que quero dizer com isso? Que não adiantar termos
uma infinidade de soluções de TIC se as próprias
pessoas não vêem ou sentem a utilidade ou ninguém
ensinou a elas o que aquele produto mudaria em suas vidas.
Veja, estamos falando essencialmente das MPMEs
no mundo digital, pois nota-se sobremaneira um movimento
na sociedade de inúmeras pessoas, sobretudo aquelas
de maior poder aquisitivo, não estarem interessadas
em saber se o produto vai agregar ou não alguma coisa
à sua vida ou negócios, mesmo pagando um custo
alto, o que importa é estar na onda.
Assim, o desafio é mostrar/ensinar ao pequeno ou
médio empresário como ele pode ganhar com
a TIC (como ?? também estamos pesquisando e formulando
soluções/respostas). Temos que quebrar o paradigma
do mercado de ser apenas mercantilista, na visão
ganha x perde ou perdex ganha. Ou ganhamos todos ou não
ganhamos. Quer ver um exemplo, não adianta o micro
empresário achar que colocando um computador e algumas
aplicações na internet vai resolver os problemas
do seu negócio. Pode até resolver algumas
questões organizacionais (arquivos, controle, acesso
eletrônico, internet, etc.), momentaneamente, mas
com o tempo ele vai perceber que se as empresas vizinhas,
seus clientes, seus parceiros e aliados, seus fornecedores,
seu contador, seus processos, etc, não estiverem
alinhados, todos perderão. Desafio é incluir
digitalmente o conjunto das MPMEs, de maneira
que façam negócios integrados (não
estamos falando de fazer os mesmos negócios, pois
tem que haver competitividade) sob risco de somente algumas
MPMEs estarem incluídos digitalmente
e excluídos ao mesmo tempo.
(Ressaltamos que as considerações, visões e comentários aqui ponderados, apesar do caráter institucional, refletem a opinião do Colaborador Silvio Sakata, e não do Banco do Brasil).