Nesta edição, Seiiti Arata Jr., Advogado
especializado em tecnologia da informação
do escritório Felsberg e Associados, fala sobre
a governança da internet e sua recente seleção
para realização de consultoria à ONU
sobre o tema.
1 - O que é “governança da internet”?
Ainda não há definição oficial para o
tema e é justamente
isso o que a ONU busca hoje. Para entender o contexto das discussões,
vale lembrar um pouco da história da Internet.
Nos anos 90 os libertários
comemoravam a expansão
da internet, entendida como um ambiente distinto do
mundo material, em que predominavam os interesses dos
governos e corporações. O “ciberespaço”,
diziam, era um reino soberano no qual as leis tradicionais
eram inaplicáveis. O que importava era a excelência
técnica, e não política, o que
ficou registrado no mantra “rejeitamos reis,
presidentes e eleições; acreditamos em
quase-consenso e em código de programação
que funciona”.
Além dessa frase, uma outra
também refletia
a mentalidade dessa época: “na internet
a censura é considerada um dano na rede e assim
os dados dão a volta por ela”, acreditando
que o controle de comunicações seria
impossível, considerada a “natureza” da
internet.
Com o tempo, essas visões se mostraram
ingênuas.
O desenvolvimento da internet, assim como de qualquer
tecnologia, foi pautado por determinados poderes e
valores. Quando esse equilíbrio muda, a internet
também muda, pois ela não tem uma “natureza” intrínseca.
Hoje, o direito e os interesses comerciais têm
força muito maior na contínua evolução
da internet. Basta ver a preocupação
por maior segurança de transações
e proteção à propriedade intelectual,
por exemplo.
A intervenção regulatória é cada
vez maior no desenvolvimento das redes de comunicação,
que têm alcance global. A governança da
internet busca justamente equilibrar e ordenar esse
processo de modo adequado e legítimo.
2 -
Qual é o estado atual da governança
da internet?
Em 2003 ocorreu a primeira fase da Cúpula Mundial
sobre a Sociedade da Informação, em Genebra.
Lá, visões muito opostas
sobre o que seria a “governança da internet” foram defendidas
e nenhum acordo foi firmado neste tema. Assim, criou-se o Grupo de Trabalho
sobre a Governança da Internet (GTGI).
A missão do GTGI inclui
apresentar uma definição
de trabalho sobre o que seria a governança da
internet na forma de relatório para apreciação
na segunda fase da Cúpula, que ocorre esse ano
na Tunísia.
3 -
Qual é sua participação nesse processo?
Tenho acompanhado de perto o tema e participado ativamente da discussão
sobre quais pontos devem entrar ou não no tema da governança
da internet. A ONU convidou neste mês três consultores, escolhidos
em concurso internacional, para colaborar neste momento em que se aproxima
a quarta reunião do GTGI na qual decisões fundamentais serão
tomadas.
Minha missão de um mês em Genebra inclui
a facilitação da interlocução
entre os stakeholders (representantes dos governos,
setor privado, sociedade civil e organizações
internacionais) e contribuição no preparo
de pareceres do GTGI.
4 -
As decisões da segunda fase da Cúpula e do GTGI terão
impacto para os brasileiros?
As discussões atuais terão impacto em todo o mundo. Pode-se dizer
que o resultado dessas negociações alcançará não
apenas a internet, mas quaisquer redes de comunicação a serem
desenvolvidas no futuro.
O pós-Cúpula é assunto de grande
preocupação para os envolvidos no processo.
Atualmente se debate a melhor estrutura para centralização
de responsabilidades sobre os temas da governança,
seja através da ICANN, da ONU ou de uma outra
via.
Seja qual for a decisão tomada, não
há como evitar que o processo de institucionalização
da internet fique cada vez mais intenso, e que o antigo
ambiente de aparente anarquia dos anos 90 seja suplantado
por maior segurança jurídica, ou seja,
mais regras. Assim, é fundamental que os brasileiros
se mobilizem agora, através da Camara-e.net,
para influenciar a moldura regulatória que está sendo
criada.
A Cúpula Mundial sobre a Sociedade da
Informação
e os debates do GTGI apresentam oportunidades estratégicas
que não devem ser desperdiçadas. É um “momento
constituinte” inédito, em que o setor
privado brasileiro tem sido chamado a colaborar para
o futuro da internet.
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